Ainda lembro quando, lendo críticas dessa série lá pelos idos de 1995, eu pensei com tristeza que jamais a assistiria. Mal sabia eu então que, em alguns anos, a revolução subterrânea dos fansubs, a disseminação vertiginosa da Internet – e a vibrante comunidade Otaku nacional cujo nascimento ambos viabilizaram – realizariam meu sonho da noite para o dia. E foi assim que assisti, entre muitos outros animes, não apenas a série Lodoss original, mas também sua continuação.
Mas agora, quando percebo que o anime a um tempo tão importante para mim reduz-se a uma vaga lembrança, e até os mangás originais foram publicados no Brasil e acumulam poeira em prateleiras de números antigos, eu me pergunto... Que diferença fizeram meus sentimentos, as noites em claro, todas as palavras de alegria e divergência trocadas através do vácuo da Internet?
Não é que eu tenha rejeitado meu lado Otaku; apesar de ter passado um período de relativo afastamento, continuo sendo fã. Assisto anime todo dia, compro mangá todo mês, e estou sempre ouvindo J-Pop. Mas hoje essas coisas ocupam o lugar a que (eu penso agora) sempre deveriam ter ficado restritas: um interesse entre muitos. Hoje o mundo anime & mangá é uma parte da minha cultura, e não toda ela. Quando lembro dos meu anos de Otaku militante, de todo o tempo gasto discutindo o lugar de Cavaleiros do Zodíaco no panteão animesco, o valor artístico / comercial do Hentai, as inúmeras adaptações para RPG de mesa que nunca joguei, os fanfics que nunca concluí... Ou mesmo os que concluí, não consigo deixar de pensar em tudo aquilo como uma enorme perda de tempo.
Hoje penso que se não fosse tão obcecado, poderia ter me dedicado também a outras coisas de que gostava, e que teriam mais consequência na minha vida... Como programação, eletrônica, robótica. Ou então ter lido mais histórias de fantasia e ficção, como as obras de Tolkien, Asimov, Frank Herbert. É claro que naquela época, sem Internet, isso teria sido bem mais difícil do que é hoje... Mas é justamente esse o ponto: era apenas a escassez que tornava a mim, eu outros como eu, tão dedicados. Era uma espécia de "masturbação cultural" o que a gente fazia, ruminando interminavelmente o pouco material que nos chegava às mãos, para compensar a falta.
É comum, em círculos de Otakus veteranos, ouvirmos dizer que "os fãs de hoje não dão valor aos animes", "no nosso tempo a gente dava mais valor", ou algo parecido. Eu digo "muito bem". Para nós também os animes não teriam tido o mesmo valor, se não fossem tão escassos no nosso tempo. E os dias de hoje, estes sim é que são bons tempos, em que é possível experimentar as coisas com que antes só podíamos sonhar.

Otaku militante foi otimo. Bons tempos aqueles.
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