domingo, 5 de julho de 2009

Saudades do Mau e Velho CLAMP

Sinto saudades do CLAMP.

Sim, eu sei que o CLAMP continua na ativa, e também que duas de suas séries mais recentes estão sendo publicadas no Brasil. Permita-me elaborar.

Sinto saudades do CLAMP dos bons e velhos tempos. O CLAMP que olhava para fora, e não para o próprio umbigo; que ousava, ao invés de insistir em fórmulas conhecidas; que arrasava nossos corações em nome de uma boa história, e não o contrário. O CLAMP do anti-videogamético Rayearth, do apocalíptico e desvairado X, ou mesmo do despretensiosamente sexual Miyuki-chan in Wonderland... Não este CLAMP, que parece mais interessado em produzir montagens de sucessos passados, como se as meninas já tivessem esgotado sua criatividade.

Afinal, o que aconteceu aqui?

Desde Cardcaptor Sakura percebe-se uma certa fobia do CLAMP por conflito. Quase todas as situações potencialmente contenciosas da série - o desejo de Tomoyo por Sakura, o desejo de Shoran por Yukito, o retorno de Clow na forma de Eriol - seja por racionalização ou desmentimento, foram resolvidas sem confronto. Se por um lado isso permitiu levar a estória sem desagradar a torcida deste ou daquele personagem, por outro lado roubou-lhe a oportunidade de ser algo mais do que uma série Mahou Shoujo bem típica, apenas um pouquinho mais pedófila do que a média.

Mesmo Chobits, que foi sem dúvida um dos melhores trabalhos da fase 1995-2006 do CLAMP, sofre com isso. Seus melhores momentos são construídos sobre tragédias - a do garoto que espera compensar a perda da irmã verdadeira colocando uma de brinquedo no lugar, a da esposa verdadeira trocada ainda viva por um brinquedo, a do homem para quem a esposa de brinquedo era a verdadeira - mas na hora de concluir seu tratado sobre a incestuosa relação entre nós humanos e nossas crianças cibernéticas, as meninas deram uma voooolta danada só para garantir um final feliz à sua heroína zumbi transistorizada.

Mas é em xxxHolic e Tsubasa Chronicles, justamente as séries atualmente publicadas no Brasil, que temos o exemplo mais escancarado do estrago que a combinação de auto-plágio com aversão a conflitos pode causar. Eu nunca imaginei que abandonaria um mangá do CLAMP pelo meio, muito menos ainda no começo; mais foi exatamente isso o que aconteceu com essas séries. Para mim, além de compartilharem o mesmo universo, elas dividem o título de pior trabalho do CLAMP. Aliás, "pior" não é nem bem o termo; "mais medíocre" seria mais adequado. Porque elas não são nem ruins: são apenas mais do mesmo... E é precisamente isso o que as torna tão decepcionantes.

E não precisava ser assim. xxxHolic poderia ser uma série muito legal, um bem-vindo retorno à sensualidade e violência de X - não fosse o humor pastelão e as constantes e desnecessárias inserções de outros trabalhos do CLAMP, que arruinam o clima e desnorteiam o roteiro. Já Tsubasa, além da compulsão por crossovers, sofre por não conseguir fazer ameaças convincentes. Afinal, depois de tudo o que vimos os últimos tempos, será que eu acredito que aquela tragédia anunciada pela Feiticeira das Dimensões - o Shoran precisar sacrificar sua "relação" com a Sakura para salvá-la - vai rolar mesmo? Ou aposto que o roteiro vai dar um mortal carpado triplo reverso para que eles acabem juntos?

Depois da falta de conflito, nada arruina uma estória mais do que a previsibilidade. É por isso que não assisto mais comédias românticas, e é por isso que pulei essas duas últimas séries do CLAMP. Fica a esperança de que, enquanto reviram a sucata de antigos sucessos para montar seus novos trabalhos, as meninas reencontrem a coragem de ferrar seus belos e queridos personagens, do modo como faziam nos bons e velhos tempos.

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